QUEIJO DE COALHO

 

Princípios básicos da fabricação

QUEIJO DE COALHO – Princípios básicos da fabricação

 

                                                                                                                                          Alberto Valentim Munck

 


1-  INTRODUÇÃO

 

O queijo de coalho já é um queijo largamente fabricado principalmente nos estados do nordeste do Brasil compreendendo: Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba. Nestes estados, o queijo de coalho se destaca entre os principais tipos de queijos artesanais de fabricação e consumo comprovadamente incorporados à cultura regional de tradição secular, transferida através de gerações. É um produto muito consumido pelo nordestino quer seja na forma assado na brasa ou frito. Nestes estados, a maior parte da fabricação, ainda é artesanal e o queijo é feito com leite cru. Devido às características deste queijo, seu sabor peculiar e principalmente sua maneira de consumo, este queijo vem, a cada dia, ganhando novos consumidores em nossa Região Sudeste. Qualquer um que já esteve na praia, se deliciando de um merecido descanso provavelmente  já provou deste queijo assado na brasa e realmente é uma delícia.


Em função do grande consumo deste queijo, em vários Estados do Nordeste, já existe uma Legislação específica para este produto. A nível nacional, através do Regulamento Técnico de Identidade e Qualidade de Produtos Lácteos, para o Queijo de Coalho já está estabelecida a sua Identidade e os requisitos mínimos de qualidade que deverão ser cumpridos para que este queijo possa ser destinado ao consumo humano.


O Regulamento define o queijo como Queijo de Coalho é o queijo que se obtém por coagulação do leite por meio de coalho ou outras enzimas coagulantes apropriadas, complementada ou não pela ação de bactérias lácteas selecionadas e comercializado normalmente com até 10 (dez) dias de fabricação. É classificado como queijo de média a alta umidade, de massa semi-cozida ou cozida, apresentando um teor de gordura no extrato seco entre 35,0% e 60%. É permitida a adição de condimento ao queijo desde que posteriormente mencionado no rótulo. O queijo deverá apresentar uma consistência semi-dura, elástica; uma textura compacta (sem olhaduras mecânicas) ou aberta com olhaduras mecânicas; a cor é branca amarelada uniforme; o sabor brando, ligeiramente ácido e salgado; o odor ligeiramente ácido de coalhada fresca; a casca é fina e não muito bem definida; o formato e o peso são variáveis. Pode ser comercialmente encontrado na forma de “palito” - que é o queijo com o palito já espetado ou em barras. O leite poderá ser integral ou padronizado e deverá obrigatoriamente ser pasteurizado.


Assim, com este tema o que se pretende é passar para os interessados uma tecnologia atual visando atender a todos os padrões microbiológicos e físico-químicos previstos na Legislação atual e atendendo ao prazer do consumidor que é saborear um delicioso queijo de coalho industrial, quer seja na praia ou numa churrascaria e tão gostoso quanto aquele fabricado artesanalmente ainda hoje.

 

 

2 – TECNOLOGIA ESPECÍFICA

 

A tecnologia que passamos a descrever é a que temos apresentado na empresas que nos consultam. Modificações, dentro de cada situação, poderão ocorrer de acordo com as características de cada indústria e o desejado no produto final.

 

a) Leite: Este deverá ser bem selecionado, afim de se ter uma matéria prima de boa qualidade fisico-química e microbiológica. Deverá ser pasteurizado e padronizado para 3,0-3,2% de gordura.

 

b) Cloreto de cálcio: Deve ser adicionado na dose convencional (400ml/1000 litros de leite).

 

c) Nitrato de sódio: Opcional o uso. Lembramos que esta substância tem a finalidade de inibir o desenvolvimento de bactérias que podem causar os estufamentos precoce ou tardio. A  dose de uso deverá ser igual a do cloreto de cálcio.

 

d) Fermento lático: Em se tratando de leite pasteurizado a adição de fermentos láticos selecionados é indispensável para a obtenção do sabor e aroma desejados. Sem dúvida esta aqui “o pulo do gato”.


Por quê? Porque o queijo de coalho pelas suas características de consumo, quer seja frito ou assado, não pode derreter. Assim, se a opção for usar uma ou mais culturas láticas o pH do produto não poderá ser inferior a 5,7 visto que a um pH de, por exemplo 5,1, o queijo estará  com um elevado grau de desmineralização o que fará com ele derreta e se deforme na presença do calor, o que é totalmente indesejável. Como orientação, no caso dos fermentos da Chr Hansen indicamos o uso então: DVS CHN 22 na proporção de 50U para 5000 litros de leite associado com: BC (Brevibacterium casei) na porporção de 10U para 10.000 litros de leite e LAF-4 (Kluyveromyces marxianus subsp. marcianus) também um envelope de 10U para 10.000 litros de leite. O fermento CHN22 é mesofílico e aromático já o BC é cultura pura da bactéria citada e juntamente com o LAF-4 que é uma levedura, vão dar o aroma e sabor típico do queijo fabricado com leite cru. Os fermentos BC e LAF só estarão disponíveis sob prévia consulta. Por outro lado, devido a este risco no controle do pH, visto que poucos fabricantes têm acesso a um potenciômetro, alguns preferem simplesmente fazer o queijo sem a adição de culturas láticas.

 

e) Coalho: Líquido ou pó, em dose suficiente para coagular em 30-40 minutos. O leite deverá estar a 340C.

 

f) Corte da coalhada: Com as liras próprias, cortar a massa a fim de se obter grãos ligeiramente menores que os da mussarela.

 

g) Mexedura: Iniciar a mexedura lentamente e ir aumentando a velocidade na proporção que os grãos começam a embolar. Esta mexedura deverá durar cerca de 15 a 20 minutos.

h) Aquecimento da massa: O aquecimento deverá ser indireto com vapor na camisa do tanque. O aquecimento deverá ser lento de maneira a elevar 10C a cada 2-3 minutos. A temperatura final deverá ser cerca de 420C. Assim, o tempo mínimo de aquecimento deverá ser de 20 minutos.

 

i) Mexedura: Esta é contínua e durante a fase de aquecimento e até o ponto deverá ser efetuada mais rapidamente para permitir um aquecimento e dessoragem uniforme dos grãos.

 

j) Ponto da massa: Observam-se cerca de 70 – 80 minutos após o corte da coalhada. Neste momento, os grãos estão firmes e ao serem compactados na palma da mão formam um bloco que se desmancha facilmente e lembra o ponto de uma massa de queijo prato de 3 kg, portanto bem firmes e secos.

 

l) Dessoragem: Aqui cabem duas situações:

 

· Queijo com textura fechada: Deixar a massa assentar no fundo do tanque e levá-la para a extremidade oposta a saída de soro do tanque. Fazer como na tecnologia do Queijo Prato. No caso para 1000 litros de leite, retirar em um latão cerca de 25 litros de soro, adicionar a este o sal na proporção de 1 kg/100 litros de leite, ou seja, 10 kg de sal. Retirar então o soro até ficar somente cerca de quatro dedos acima da massa. Adicionar a salmoura já preparada (soro e sal), lentamente e mexer a massa para uma perfeita distribuição uniforme do sal. Colocar as placas de pré-prensagem e prensar com o dobro do peso da massa por 20 minutos.

 

· Queijo com textura aberta: Deixar a massa assentar no fundo do tanque, retirar o soro até ficar cerca de quatro dedos acima da massa e adicionar o sal a seco, 1 kg por 100 litros de leite trabalhado e mexer bem a massa com as mãos afim que esta resfrie e posteriormente tenha dificuldade de soldar os grãos e forme as olhaduras mecânicas. Após a distribuição do sal, pré-prensar a massa como citado anteriormente.

 

m) Prensagem: No mercado já são comercializadas formas próprias para este queijo quer sejam para 3 kg ou 8 kg. Os queijos são envolvidos em dessoradores ou tecidos e levados a prensa no sistema convencional. A primeira prensagem deverá durar cerca de 30 minutos e a segunda por mais 1 hora e meia, que é o suficiente. Findo o tempo, retirar os queijos da prensa, das formas e dos dessoradores e reprensar por mais 20 minutos para acertar as “rugas”. Finalmente levá-los para a câmara a 10-120C até o dia seguinte.

 

n) Secagem: No dia seguinte retirar os queijos das formar e colocá-los para secar nas prateleiras por mais 24 horas.

 

o) Embalagem: Os queijos são fatiados manualmente ou em máquinas pneumáticas apropriadas que já existem no mercado. Os tabletes são colocados nos sacos cry-o-vac e embalados normalmente já os queijos para assar são fatiados, os palitos inseridos e colocados nos sacos em torno de quatro a seis unidades. O vácuo é feito e a embalagem soldada, mas desta vez não deverão passar pelo sistema de encolhimento visto que este processo deforma a embalagem final.

 


p) Consumo: Quando se trabalhar com culturas láticas na fabricação, o ideal é deixar os queijos em uma câmara a 100C durante, pelo menos, uma semana para que as bactérias ajam formando os compostos que vão dar o sabor e aroma no produto.  Por outro lado, quando não há o uso de fermentos láticos e o queijo já esta pronto para o consumo logo após a embalagem.

 

 

3 - OBSERVAÇÕES IMPORTANTES

 

· A validade constatada em algumas marcas do queijo  tem sido de 2 a 4 meses. Cuidados especiais devem ser tomados quanto à seleção do leite e quanto a presença de esporulados e contaminações com coliformes. Lembramos que o queijo tem um pH muito alto (5,7) quando se usa fermento ou mais alto (6,3-6,5) quando não se usa fermento e daí facilmente as bactérias contaminantes encontram condições de desenvolverem. O uso do nitrato de sódio é indicado.

 

· O queijo de  coalho é normalmente mais salgado(2%) o que ajuda a contribuir em seu sabor mais acentuado.

 


· A umidade do queijo gira em torno de 43%. Umidades muito elevadas implicam em grande separação de soro durante a fritura e amolecimento durante o assado.

 

· Considerando que o queijo apresenta uma elevada presença de lactose já que não é de massa lavada e de baixa fermentação, riscos com contaminações de leveduras são elevados e fermentações na casca do queijo podem ocorrer provocando o estufamento da embalagem e formação de odor semelhante a frutas fermentadas,  portanto, cuidados com a higiene, inclusive do ambiente, devem ser objetos de grande atenção.

 

 

4 - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

1. Pires, Edleide Maria. Freitas e outros. Queijo de Coalho: Aspectos Técnicos de Produção. Recife, 1994. 44p (Agroindustria1)
2. Nova Legislação Comentada de Produtos Lácteos- 2002
3.  Referências pessoais obtidas em visitas aos fabricantes de Queijo de Coalho.

 

Obs: O Autor é Consultor Técnico Comercial da Chr Hansen Indústria e Comércio Ltda e Professor de Tecnologia de Queijos e Manteiga no Instituto de Laticínios Cândido Tostes.
e-mail: alberto.munck@br.chr-hansen.com

 

 

Clique aqui e veja o Regulamento Técnico de Identidade e Qualidade do Queijo Coalho

 

 

www.cienciadoleite.com.br